sexta-feira, 10 de maio de 2013


lembro de minha irmã sonhar com o amor de sua vida – já morto – e este lhe dizer em alemão: “a vida é somente um sonho”. lembro a Carol em uníssono com o Mário, revelando os mistérios de Calderón de La Barca: “sonhos, sonhos são”. lembro o Caio Sóh na canção que só eu lembro e de reconhecê-lo em suas palavras: “será que o sonho adormeceu?” lembro de mim, mais sábio e jovem, em destemidas tatuagens por aí: “não durma antes de sonhar”. lembro tanta coisa inesquecível que periga a memória não comportar o inédito e eu me pegar sonhando com um passado fictício por puro golpe de imaginação, desde um gol do Romário com a camisa do Botafogo a uma verdade varandista lúcida, harmônica e abastada – maldades do inconsciente! não sou, porém, o que se costuma chamar de saudosista. aliás, o que mais prezo em minhas lembranças é o fato de estarem intactas, me orgulhe eu delas ou não. ao contrário do ditado russo que afirma que o futuro é certo, mas o passado muda a todo instante, gosto de me ater à beleza simples do ontem perfeito – porque acabado – e do amanhã em branco. não desperdiçaria um tostão do que sou para reviver ou recriar coisa alguma. se eu tivesse escolhido ser comediante, por exemplo, incluiria esta resenha num livro intitulado “crônicas agudas.” quem escreve a sério, no entanto, só é engraçado quando erra – não que o humor seja um erro, mas para um poeta metido a escrever prosa, um erro soaria cômico, ao passo que para um médico, o erro é, senão, algo trágico – e eu até posso errar, claro. digamos, apenas, que eu não queira e prefira nem dar nome ao livro, lançá-lo já seria uma pachorra. se eu fosse um comediante, pois, esta resenha teria alguma graça ou eu seria um embuste, um mero cronista com nariz de palhaço e sem platéia ou com a platéia errada, o que tampouco me interessa. ainda bem que “a gente é para o que nasce” e não se nasce duas vezes, como acreditam os cardecistas. se há, portanto, alguma graça e certeza nessa vida é que a vida é mesmo essa e só. “não basta!” – diria Silvana, vestida de Carol. penso no ‘De Repente’ e não sei bem precisar se penso na Silvana ou na Carol ou na peça ou na letra que Antônio revelava ser sua ou na própria vida quando respondo em sonho às minhas próprias palavras com palavras do Chico na canção homônima ao clássico de Calderón: “nunca na vida foste minha...”. enfim. deve haver uma palavra em alemão para este sentimento que já passou de raiva, dor e saudade.

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